Danton Jobim  Pompeu de Souza

 


Um casamento perfeito

O catedrático Danton Jobim e o pragmático Pompeu de Souza
promoveram a maior reforma da imprensa brasileira


Por Mayra Kallás e Paula Dume

É praticamente impossível — e no mínimo injusto — falar da imprensa brasileira sem tocar nos nomes de Danton Jobim e Pompeu de Souza. Igualmente complicado é separar um do outro para contar a história do jornalismo no país. Os jornais que você lê hoje têm muito a ver com a revolução que eles, em simbiose intelectual, fizeram nos anos 50.

Neste começo de século XXI, em que os jornalistas mais respeitados — inclusive muitos que lecionam — execram e desprezam o ensino de jornalismo, o papel dessa dupla merece ser lembrado como talvez a prova material mais contundente da eficiência da aliança entre teoria e prática.

Ambos trabalhavam no Diário Carioca, um dos mais tradicionais jornais do país, quando o ditador Getúlio Vargas, em 1943, permitiu pela primeira vez que se montasse o projeto-piloto de um curso de Jornalismo. O tal cursinho não teria nenhuma autonomia e funcionaria anexo à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Brasil. Danton e Pompeu já tinham muito o que fazer no jornal para se meter em algo que teria de começar do zero e, é claro, sem recursos.

No entanto, arregaçaram as mangas e agregaram um grupo de jovens, vindos de diferentes cursos universitários, com o intuito de introduzir no Brasil as técnicas de redação originalmente desenvolvidas nos Estados Unidos e que já se haviam generalizado nos países desenvolvidos. Na época, corria o manual da agência de notícias norte-americana United Press International (UPI), que trazia técnicas de redação jornalística, como o lide e a pirâmide invertida.

Esse foi para ambos o ponto de partida — um documento que formalizava o que no máximo se intuía. De certa forma, aquele manual era o primeiro livro técnico, por assim dizer, que serviu de base ao mesmo tempo para ensinar jornalismo e para testá-lo na prática, por meio de uma reformulação no jornal onde trabalhavam. Danton tinha mais facilidade para o aspecto acadêmico, para pesquisar e ensinar. Pompeu era mais pragmático.

Unindo essas características, eles assinalaram o surgimento da adaptação para a língua portuguesa do lide — primeiro parágrafo da reportagem impressa, no qual consta o fato principal ou mais importante de uma série. Propuseram também que os dados mais relevantes estivessem logo no começo do texto, prontos para serem rapidamente assimilados pelo leitor, dispostos em ordem decrescente de valor — a chamada pirâmide invertida.

O lide do Diário Carioca, porém, lembrava mais o texto dos jornais ingleses do que o dos norte-americanos, particularmente porque os períodos eram mais longos do que na imprensa dos Estados Unidos. Com o tempo, a dupla fez a transposição para o ritmo do idioma português do princípio formulado pelo sociólogo inglês Harold Lasswell — a resposta às perguntas o que, quem, quando, onde, como e por que.

A reforma editorial, no entanto, não se limitou apenas à introdução da técnica do lide e sublide — o que, sozinha, já foi uma revolução — mas incluiu também uma série de inovações que correspondiam à modernização do idioma escrito. Pode-se dizer que Pompeu de Souza está para o jornalismo assim como a Semana de Arte Moderna de 1922 está para a literatura.

Ele adotou no Diário Carioca o texto modernista, varrendo o estilo pomposo que solenizava os títulos e os textos. Eliminou do texto palavras em desuso (como nosocômio, edil ou alcaide) e formas gramaticais em extinção no dia-a-dia, como as mesóclises (realizar-se-á ou dar-me-lo-iam). Aos poucos, foram acabando também com os tratamentos cerimoniosos que precediam os nomes das pessoas — senhor, senhora, doutor, excelência, e, para os desqualificados socialmente, indivíduo.

Com base no trabalho na universidade, Pompeu escreveu em 1950 o primeiro manual de redação de que se tem notícia na imprensa brasileira (o dos jornais O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo só surgiram nos anos 80), acabando de vez com a confusão dos estilos individuais. Os preceitos instituídos pela dupla foram aperfeiçoados ao longo do tempo, à medida que a evolução dos costumes ia permitindo as mudanças.

A primeira publicação a seguir a cartilha do Diário Carioca foi o Jornal do Brasil, também do Rio de Janeiro. Com o passar de poucos anos, todos os grandes meios de comunicação do país seguiam as mesmas diretrizes, mantidas até hoje. Como conseqüência mais profunda, as modificações propostas de Pompeu e Danton abriram terreno para um novo jornalismo no Brasil, mais preocupado com a objetividade e, também, com a beleza do jornal.

Até então, o jornalista escrevia como bem entendia. "O Diário Carioca foi um jornal tecnicamente revolucionário, que terminou com o lero-lero das reportagens intermináveis em que a estrela era o repórter, e não o assunto", escreveu certa vez Paulo Francis, um dos mais celebrados e talentosos jornalistas brasileiros. Verdadeira usina de talentos, o jornal abrigou grande parte dos melhores jornalistas, até fechar, em dezembro de 1965, anos depois da saída de Pompeu e Danton, que escreveram três livros cada um e se elegeram senadores (leia mais ao lado).

Não foi um trabalho fácil para os dois primeiros professores de jornalismo do Brasil. Eles não só tinham que enfrentar a resistência dos profissionais da época, como também trabalhar num ambiente pouco profissional. "Na América Latina ninguém funda um jornal para negócio, para fazer dinheiro", disse Danton Jobim certa vez. "O dinheiro pode vir como um inesperado dividendo, mas o jornal é fundado geralmente para fins políticos, sendo raro o que se torna financeiramente estável e forte com o correr do tempo."


Bibliografia

JOBIM, Danton. Espírito do Jornalismo - São Paulo: Edusp: Com-Arte, 1992.
http://www.eca.usp.br/prof/josemarques/arquivos/dic_d1.htm
http://www.diariocarioca.com.br/
http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/lage-estadao.html
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/circo/cir130120041p.htm
http://www.usp.br/edusp/livros/livro397.htm
http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2003/jusp641/pag11.htm
http://www.uff.br/mestcii/ana1.htm
http://www.jornalismo.cce.ufsc.br/gratex2.html
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/da060220021.htm
http://www.igutenberg.org/jj27historia.html
http://portalliteral.terra.com.br/zuenir_ventura/caderno_z/nas_redacoes/
nas_redacoes.shtml?cadernoz



 



Nascido em Avaré, interior de São Paulo, em 8 de março de 1906, Danton Pinheiro Jobim estreou no jornalismo como repórter no jornal A Noite na década de 20, mudando-se então para o Rio de Janeiro.

 

Danton Jobim

Ingressou no Diário Carioca em 1933, onde permaneceu até 1956, mas somente viveu o auge de sua carreira na década de 50. Primeiro scholar brasileiro no campo da Comunicação, Danton por três vezes foi presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Morreu em 26 de fevereiro de 1978, vítima de uma parada cardíaca provocada por embolia pulmonar. Em um de seus três livros, Espírito do Jornalismo, Danton apresentou uma visão de conjunto dos problemas do jornalismo. Abordou, na obra, o noticiário de conflitos internacionais, abandonando a aspiração à imparcialidade absoluta.

Pompeu de Souza Nascido em Redenção, no Ceará, em 22 de março de 1914, Pompeu de Souza foi jornalista, escritor, professor e político. Diplomou-se em sociologia e psicologia.

Pompeu de Souza propôs o texto que se transformou no artigo 220 da Constituição, que estabelece a proteção legal da liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, além do projeto do Estatuto da Cidade (1989), que visa o planejamento urbano de forma sustentável.

Foi secretário da educação, presidente do Sindicato dos Escritores, membro da Associação Nacional dos Escritores e diretor da Editora Abril. Morreu aos 77 anos, ainda senador, em 11 de junho de 1991.

Pompeu ainda foi idealizador, fundador, primeiro diretor e professor emérito do Curso de Comunicação da Universidade de Brasília.

 

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